quarta-feira, 25 de novembro de 2009


A ROCHA ROXA


Sim, somos uma rocha, Ingrid!
Somos uma rocha, poxa!
Uma rocha roxa
que desabrocha
sanguínea como um galope.
Somos uma rocha cheia de bossa.
Uma rocha rosa, na crista da onda
e fazemos por onde,
mesmo sem rumos.
Somos uma rocha que afunda
para encantar as baleias
e mudar as marés.
Vai descendo como flor,
acende submersa
e rescende odores da mudança.
Como o amor
que é aventura de nadar
na água escura
e afundar
pra ver se dá pé.
Um pé de flor, que dá rocha.
Um pé de rocha, que dá flor.
Somos uma rocha
para que a vida tropece,
não para machucar a vida.
Quando a vida cai,
somos nós que levantamos!
Somos uma rocha, Ingrid!
Uma rocha de coração mole,
e rija.
Uma rocha que acolhe
e realiza.

terça-feira, 22 de setembro de 2009


POEMA DE ESPANTAR CAVALOS



Por lá, não há ardores nem perfídias.
Nas almas, decantam energias frugais:
A brisa que tolhe as crinas dos corcéis,
A fumaça que sobe do rio gelado,
A pétala que estala ao abrir-se o botão.
Por lá, os estoques de hormônios envelhecem
Enquanto a relva escorrega nas vísceras da manada.
Não deixe que os olhares do potro
Assistam a sua passividade camponesa...
Faltará existência se se puser na mira desses vulcões invisíveis.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009


EMBALO
DE
CHARRETE



Noto a corte de insetos contornando a pedra.
Tudo à volta é borra de mistério.
O rio fecha os olhos e as margens se tocam.
Onde está a dor no meio desse verde-castanho?
A dor do menino que já passou...
A dor que ele ainda pode sentir...
Abra os olhos, Rio!
Deixa a sua alma desabar pelos vergéis,
Entrar na capoeira e desabrochar na várzea!
Suas mãos brilhantes trazem dos barrancos
O humus de esperança que lá na frente
Vai saciar a sede de fertilidade do menino.
Não há melhor analgésico que a semente brotando
No peito assediado pela sedução da vida.
Em setembro, quando a terra forra-se do ipê,
Vou me casar com a Natureza,
Dormir tranquilo, acordar sem medo,
Sem lembrar da saudade
E das histórias que esqueci de contar para o meu menino
Porque precisava sorrir urgentemente.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

ELA VAI

Ainda que nada mais seja segredo,
Ainda que nada mais tenha mistério,
Ela deixará seu sangue correndo nas veias
E partirá, mesmo sem decisão ou escolha.

Ainda que haja dia o tempo todo,
Ela saberá viver sem o destino a molestá-la
E partirá mesmo que rumo outro
Tenha a marca de muitas e fundas pegadas.

Ainda que haja firmeza em tudo o que a faz ficar
E haja até a certeza impossível vencendo as ambiguidades,
Ela irá contra o vento, as marés, as conjunturas,
Ignorando que foi contra as juras cansadas.

Ainda que a fé não a açoite,
Ainda que nunca aceite chegar pra onde irá,
Todos os santos a levarão dentro do peito,
Num carnaval silencioso ensurdecendo a noite.
Ela caminhará sem pés e sem veículos,
Pois todo o movimento que a concerne
De repente nada mais move.

Não voará, navegará, cavalgará, nem levitará...
Ela vai como se já tivesse ido!
Porque o feitiço é imponderavelmente maior,
Desmedidamente maior,
Imediatamente maior,
Que os invencíveis Leviatãs.

Nem é para o bem, porque os sistemas binários
Se fragmentaram em tal atropelo
Que as leis do enquanto não se aplicam aos universos.
Ela vai, e só não aleatoriamente porque tomou os acasos
de assalto.
Nem vai com jeito de ir porque seu eu,
Antes sem ego, agora sem coração e cérebro,
Não sabe nome de nenhum verbo.

Ela vai sem que alguém a espere
E sem que essa orientação
Seja resposta para suas dúvidas.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Denotação

A composição do teu sentido condenatório resplandece o emissário:
“Imperioso regente, haverá na floresta de filos cousa a exaltar-se?”
Sépala e clandestina! Meu melindre paratônico,
Obstante, ávido e inacabado.

Seu semblante deixa transparecer o afã atormentador,
Acalanta vaporosos desejos incitos,
Catedrático vitral repleto de caracteres de variados matizes.
Impugno a inquietação mental que assombra as vagonetas da alma.

Tatiana Comitte

A louca

Na ponta da língua conheço o sal das gotas lacrimais,
Remorsos a fender o brio do órgão de saraiva,
Poça de lama evaporando erotismo carmesim,
Hipódromo de nódoa com aroma dominante.

De convicção ilusória, todavia, de pulso acelerado,
Nevoeiro de mácula veloz a transitar.
Açulado dissipa o selo da tormenta,
Oferecendo, como dádiva, flores no almejar da paixão.

O mover do manto das viúvas transpõe.
Harmoniosamente, transborda a peça vaginal,
E os que, estando, provam da cilada genérica e estâmica.

E entre a confusão o molde fúnebre limita, a louca
Complacente ao alheio prazer endiabrado,
No folguedo sem fim da pandega rasgada.

Tatiana Comitte

Sinônimos

Somáticos da terceira constelação: desoprimidos
Cocheiros de cometas galopantes, compreendemos servos
Conexos a êxitos
Seres em evolução eloqüente a bailar no éter.
Canônicos fomos, grávidos
E na estação de gelo lamurias de esmeralda.

Imóveis locomotivas sem roteiros
Impulsos orgânicos, sofreguidão,
Inquéritos dilacerados á espera de guarida
e análogo ao tempo dissipado,
expor-se a patuscada,
como orifícios terrestres a cuspir vivacidade.

Determinados, celebraremos o solistico
a fim de esparzir lóbulos botânicos,
confeccionaremos preceitos soberanos aos delitos,
que serão ninhos de deliciosos enganos,
embora o despeito, pesar melindre!
Edificaremos templos de imortalidade.

Tatiana Comitte