domingo, 18 de dezembro de 2011









ATO DE AMAR


Todo afeto é comprometido.
Promessa a dois de receber o contido
naquela bagagem de tantas desfeitas,
de tantos ideais interestelares,
desculpas aceitas, dores descontinuadas...

Todo afeto já é o fim de uma aposta
uma vez que a sorte nele foi lançada,
e os vetos rompidos e pelo menos uma porta
aberta.

Quem pode questionar a quietude e a usura
de amor?
Mas questionar é um ato de identificação in natura.
É preciso mais do que questionar:
interpelar o coração inibido, por sua abertura.

E indagá-lo sobre a dormência, o sono injusto.
Demandar, diligenciar, para que se desnude.
Que esta investidura não lhe cabe como veste!
O mandato de um coração severo é usurpação
de um futuro ato de amar.








BÁSCULA

Enquanto os séculos se contorcem
em camas elásticas estiradas acima dos pântanos,
Lobos lambem os lábios de uma deusa entupida
de mitos, de muitos anjos engasgados,
rescendendo a sândalo e a mijo de musas.

A esta altura os estereótipos não são mais corriqueiros
pelo efeito da divisão dos corpos - a praga futura.
Famílias de bardos, no mínimo que se pode dizer
insentatos...
criam novos modelos arraigados em randômicas distensões
dos discursos de velhos sábios desalmados
que a história resumiu em pedras esponjosas
banhadas pela chuva ácida e pelo mar sulfuroso.

Talentos individuais!! Ah, que morte mais instântanea
engoliu-os no crepúsculo dos deuses histéricos!!
Revolta, conflito, heterolutas e homodestruições
acabaram de vez com as diligências de antanho.

Mitos, musas, mágicas do orvalho...uma sílfide
sobrou do desabamento, detonada, com a maquiagem
de espuma preservada do afogamento
depois dos canos estourados dos arranha-céus.

Não é o caos!! Não é o cosmos!! Não é marca
da devastação que mina a nossa rapsódia.
É o mantra que, sem saída, dois pobres diabos
entoaram para salvar a única peça humana
que sobrou do último olhar entre eles.

Por uma báscula, ela viu que o mundo já estava
cego.
A DAMA DOS PÉS DE TOURO

Postada defronte à imaginação,
postada nas artes das esferas digitais,
por tanto ser ciente de sua dor,
Dona Sol afasta-se desse mundo-cão
crendo-se diabólica no maravilhamento.

Terríveis luas dançam no ar...
A subida para o alto é complexa:
a Dama, no extremo do fantástico,
vê fendidos os pés num hibridismo
de quem tem animais no sangue.

Temor ancorado na selvageria solitária
eleva a tensão mansa
a uma gama de mundos ficcionais.
Apesar das festas, tem saudade do interdito,
da transgressão revolucionária dos ritos.

Seu dom de privilégio é ter pata de touro
e o critério venusiano a faz perceber indícios
de Terra no cósmico aparecer do caos.
Seguindo o percurso inverso do encontrar,
rompe, já incandescente, o azul da atmosfera.
O INSTRUMENTO

Eu toco um instrumento com a língua.
Música sai em códigos de pensamento.
Cada tecla, cada corda do apetrecho
estão nela ocultas, em partes exíguas.

Teclas invisíveis que tenho de achar,
desvendá-las apalpando com lambidas.
Um dia vou conhecer todas essas notas
que vão compor concertos e melodias!!

Tem uma tecla pouco acima da anca,
outra atrás do dedo do pé esquerdo.
Dentro dos cabelos, quase na orelha,
outra num olho, e até onde se espera.

Enquanto evolui minha canção em ti,
a língua encontra tons nos órgãos.
Deixa eu te penetrar para plangerem
as últimas notas, até tanger a alma!

Eu molho esse instrumento com saliva.
Ele emite vibrações cativas na carne,
ondas de encanto, detalhes do seu mar,
corpo de mulher desfeito em acalanto.
CASA DEFINITIVA

A felicidade é uma casa definitiva
quando finda sua derradeira recidiva.
Ela não vem mais, ou deixa de refluir,
como uma alegria endêmica malcurada.

Já o amor dá lugar à sua busca,
substituído pelo eterno caminhar.
Todo amor pode esperar pelo amor todo,
Antes da casa definitiva não há lugar.

A busca da felicidade como sua meta
não traz inclusa o tempo da chegada.
O amor antes de alcançar já se realiza
O alvo existe pra cá da seta lançada.

E quem não gasta a felicidade por aí
sem planos de chegar um dia a este lar?
Buscando a hora feliz sem se dar conta
de que a vez do gozo é só quando se ri.

Felicidade feita de conta, uma farsa
que se espera sempre, fingindo que vem.
Essa que vi vai ver viram virar vidro
Depois de rutilar pepita gema diamante.

Num instante, onde ela está ela passa.
No amor basta a caça, ilusão de amantes.
Amor: meio de produção. Felicidade, não:
ela é causa em si, é como atividade-fim.

Felicidade: caminhos, viagem indefinida.
Sabemos, no caos, que o amor vive em nós
e onde nós viveremos enfim ao voltarmos?
Vamos afinal para nossa casa definitiva!

Matéria de bloco, argila, cimento, cal...
Agora não perco o foco, não olho atrás.
Antes de botar o pé na cova, vou pra casa.
A felicidade é sim a residência em paz.

sábado, 2 de julho de 2011








ALÉM DA FERTILIDADE


Súbito, a dúvida assoma no perfil do cosmos.
Uma vulva envolve a outra, como o reflexo
resolve as imagens univitelinas que se alinham.
Vitais! Que, vertiginosas, se avizinham,
desistindo, por ora, disto a que se destinam
- a obra divina incorporada no íntimo berço.
Duas rainhas, súditos são os seus prazeres,
matéria incorpórea que, prenhe, preenche
de sentido as formas dos avessos revelados.
Que querem saber a mais do que explicam?
Por sonharem-se, por desafiarem os fins
e por colorirem-se, rindo-se tão carmins.
Fogem da cruz, do sacrifício de acasalarem
para o bem da espécie. De, sós, se bastarem.
Por que não seguir por onde se carregam?
A favor de um vento que leva a si mesmo
e não os pólens, os gens e suas miragens.

sábado, 9 de abril de 2011






MANDATO


Lendo a jazida opaca e dura, em seiva solvida se descomplica, translúcida. Por toda a manhã fulgura. Quando a tarde se esforça, fica e se aguça. À noite, apenas reduz-se, luz escura. A vida é pra agora - que siga! No fedor da boca que devora a podre espiga, se revigora. No horror do que a fez, mesmo assim, extertora infinda e funda. É mandato, tão rica de desejo e aventura. Arremete em calma, do zero ao fim da alma, levando entre as mandíbulas um cordão de estrelas. Acontece, à revelia dos enredos, no meio da confusão e dos medos, do azáfama à combustão, do amálgama à fusão, do esmalte ao nervo, com os mais sinceros sins na oclusão da arcada, numa mordida exata, como a de uma felina e a ninhada. Resplandesce, livre de ensejos. Brilha até quando escura. A vida factível não esmorece, apesar de os corpos néscios não se erguerem em sua honra. Sobe a um nível sem andares, firme nas próprias gangorras. Ergue-se visível, sem imagens. Resto do todo, uno e esfacelado, que se retempera ao se partir. Fração do nada, ainda é ela quando algo se acaba. Logo ao se definir, não importa o que lhe ocorra. Lida a jazida onde, rútila em prismas, está compreendida, pejada e fonte de albor expira a última necessidade de interpretar o que é dor.


Foto: Martina Gusman, no filme "Leonera", de Pablo Trapero